Audiência no MPT-RN encerra Abril Verde com alerta sobre responsabilidade coletiva na promoção da saúde psicológica do trabalhador
Encontro contou com exposições por especialistas no tema e ampla participação da sociedade civil
Natal (RN), 29/04/2026 - O MPT-RN promoveu, nesta terça-feira (28), uma audiência coletiva com o tema “Saúde Mental no Ambiente de Trabalho e Gestão dos Riscos Psicossociais”. O evento, idealizado pela procuradora do Trabalho e coordenadora regional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho e da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Codemat), Christiane Alli, finalizou as ações do Abril Verde 2026 e teve como objetivo discutir questões contemporâneas referentes à saúde da trabalhadora e do trabalhador, incluindo a atualização da NR-1.
O dia 28 de abril foi selecionado para a realização da audiência em alusão ao Dia Mundial de Segurança e Saúde no Trabalho, instituído em 2003 pela Organização Mundial do Trabalho (OIT) em memória às vítimas de uma explosão em uma mina nos Estados Unidos, em 28 de abril de 1969, que matou 78 trabalhadores.
O encontro foi conduzido pela procuradora Christiane Alli e contou com a presença de autoridades, especialistas e representantes de entidades empresariais e sindicais.
A programação teve início com a mesa de abertura, composta por Gleydson Gadelha, procurador-chefe do MPT-RN; Christiane Alli, procuradora do Trabalho; Eduardo Serrano, desembargador presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 21ª Região (TRT21); Cláudio Gabriel, superintendente Regional do Trabalho e Emprego; Eveline Macena, presidente da Comissão de Saúde da OAB-RN; e Karla Falcão, subcoordenadora de Vigilância em Saúde do Trabalhador da Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN (Suvist/Sesap/RN).
As autoridades convidaram os presentes a refletirem sobre o alarmante número de afastamentos por razões de saúde mental no Brasil. Em 2025, foram concedidos 546 mil benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais (dados do Ministério da Previdência Social), um aumento de 15,66% em relação a 2024.
Para o desembargador Eduardo Serrano, "não há ambiente de trabalho verdadeiramente saudável quando o medo, a pressão excessiva, a exaustão, a humilhação, a insegurança ou a indiferença se tornam parte da rotina".
Eveline Macena destacou a questão da degradação da saúde mental dos advogados do Brasil e o medo que esses profissionais sentem ao buscar ajuda.
“Pesquisas conduzidas pelo conselho federal da OAB revelam que mais de 60% dos advogados brasileiros apresentam sintomas de ansiedade e parcela significativa convive com a depressão, síndrome de burnout e outros transtornos relacionados ao trabalho. São colegas que pedem socorro em silêncio, ou então simplesmente não pedem, porque entendem que não precisam. O advogado que adoece teme ser visto como frágil e incompetente”, pontuou a presidente da Comissão de Saúde da OAB-RN.
Gleydson Gadelha guiou a discussão para os desafios impostos pela digitalização das relações de trabalho, destacando a necessidade da separação entre as esferas da vida.
“Nós estamos na era da hiperconectividade, então também estamos presos à questão do trabalho conectado, do trabalho o tempo todo. Devemos então pensar no que podemos fazer para sobreviver mentalmente no mundo de hoje, da maneira mais leve possível, sabendo que o trabalho é inevitável, mas a vida se põe acima de tudo”, frisou o procurador-chefe do MPT-RN.
Painel temático
O painel “Adoecimento mental é problema individual ou organizacional? Caminhos para uma gestão responsável dos riscos psicossociais” contou com as exposições de Ana Patrícia, médica psiquiatra do Cerest/Natal e professora da UFRN; e Maurício Campelo, médico psiquiatra, diretor do Observatório de Saúde Mental da UFRN e professor da instituição.
A abertura do painel foi realizada pela procuradora Christiane Alli, que questionou: “Se várias pessoas adoecem no mesmo setor, ainda podemos chamar isso de um problema individual? Tratando do sentimento de “fraqueza” ou até mesmo da vergonha que os trabalhadores sentem em admitir que estão com problemas de saúde mental, até que ponto o “discurso da resiliência” ajuda? Ou ele mascara problemas estruturais?”.
Em sua apresentação, Ana Patrícia deu continuação à indagação e abordou a responsabilidade das organizações (empresas, órgãos públicos, ONGs e quaisquer instituições que empreguem pessoas) na promoção da saúde psicológica no ambiente de trabalho, destacando a negligência histórica das instituições com o tema.
“Investir em saúde mental é investir em produtividade e bem-estar. Um país que não investe nisso, não está pensando no futuro; e, para cuidar da saúde mental no trabalho, é necessário reorganizar o ambiente laboral”, destacou a pesquisadora.
Maurício Campelo destacou, em sua exposição, a priorização da saúde física em detrimento de transtornos mentais, relegando essas questões à responsabilidade individual e estigmatizando o cuidado com a saúde psicológica.
“É recente a atenção que está sendo dada à saúde mental diante das evidências muito contundentes da sua importância no ambiente atual, em particular para o mundo do trabalho”, ressaltou.
O psiquiatra apontou ainda o caráter coletivo e social da prevenção das doenças mentais no ambiente de trabalho: “Existem origem diversas para o adoecimento mental dos trabalhadores, sendo elas individuais, sociais e organizacionais; e lidar com esse problema deve ser responsabilidade de múltiplos órgãos, em especial das organizações do estado e da sociedade, como o legislativo, o executivo e o judiciário”.
Ao fim, a sociedade civil integrou as discussões, contribuindo com sugestões e reflexões acerca da temática.
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